Apontado como um dos jornalista mais respeitados do estado e que assina um blog independente, chamado de Colunão, Walte Rodrigues, postou o seguinte comentário em seu blog que reproduzo na integra para aqueles que basta ser contra Sarney, que qualquer m....é bonita e cheirosa.
"
A onda estragou o surfista (2)
O aspecto mais intrigante do livro de Palmério é o descarte dos fatos que pudessem incomodar tucanos e aliados.
A Operação Navalha, por exemplo, deflagrada em 2007 por ordem de ministra do Superior Tribunal de Justiça, em nove estados e no Distrito Federal, contra o chamado bando Gautama. O leitor ainda se lembra que essa operação da Polícia Federal prendeu o ex-governador José Reinaldo Tavares e dois sobrinhos lobistas do então governador Jackson Lago, além de um ex-secretário de ambos e outros funcionários estaduais.
Soube também que as mesmas investigações levaram ao indiciamento e posterior denúncia (de autoria do procurador-geral da República) de, entre outros, Jackson, Wagner Lago (PDT), irmão do ex-governador, e o ex-ministro Silas Rondeau (Minas e Energia), ligado ao esquema Sarney.
Silas escapou de ser molestado pelas algemas porque ministros de Estado só podem ser investigados e processados pelo Supremo Tribunal Federal. Fora do alcance do STJ, portanto.
Silas, todavia, antes mesmo da denúncia formal, foi derrubado do ministério de Lula pelos indícios de que ele, como os demais, comera propina da construtora Gautama, âncora do esquema desvendado pela PF. Wagner Lago, ao contrário, continuou secretário “de Relações Institucionais” de Jackson, em Brasília, até a cassação do governador por corrupção eleitoral este ano.
Engano ou esperteza?
Jackson escapou da prisão em 2007 porque a ministra Eliana Calmon, do STJ, para excepcionalizá-lo, invocou dispositivo da Constituição do Maranhão na verdade inexistente. Pode ter sido engano, porque o dispositivo de fato existira, até ser declarado inconstitucional em face da Carta Magna. Ou pode ter sido esperteza, já que prender um governador bota os outros em pé de guerra preventivo.
Estes cinco parágrafos que acabo de escrever contêm informações amplamente sonegadas pelo jornalista paraense, não em rápida matéria de blogue, mas num livro (impresso de ao menos 49 páginas, segundo a Unesco), do qual se esperaria apuração mais cuidadosa. Ou, no mínimo, que não fechasse os olhos aos fatos inconvenientes à tese maniqueísta que perfilhou.
Quem só souber da Operação Navalha pela versão palméria pensará que, dos maranhenses, apenas foram atingidos Silas e Ernani Sarney. Este último, grampeado em conversa suspeita, entra na gilete do livro sem ter sido indiciado na navalha da PF.
Já os indiciados e denunciados Jackson, Zé Reinaldo, Wagner etc, absolvidos pelo autor, entram e são referidos no livro sem a menor indicação de que, a exemplo do ex-ministro sarneísta, integram a suposta quadrilha denunciada pela PGR.
É como se alguém, noticiando recente crise no Congresso, citasse a representação contra o tucano Arthur Virgílio no Conselho de Ética, sem mencionar as oferecidas contra Sarney. (Palmério, aliás, faz o contrário: quando cita Virgílio é para insinuar que esse santo talvez tenha “ganho” uma eleição que perdeu no Amazonas).
A paixão sem freios dá até para que Palmério classifique Álvaro Dias (PSDB-PR) de “traidor”, por haver votado em Sarney para a presidência do Senado (página 65). Sem explicar por que então elogia peemedebistas como Jarbas Vasconcelos, que votaram no candidato dos tucanos, o petista Tião Viana.
Pornografia
O livro tem 207 páginas. A maior parte ocupada pela colagem de noticiário antipetista e anti-Sarney publicado na grande imprensa do Sudeste e na imprensa pró-tucano de São Luís. Dez páginas são de charges dos irmãos Chico e Paulo Caruso. Dos quais Palmério também reproduz uma canção pornográfica contra Roseana, baixaria que não honra nenhum dos três.
Outras cinqüenta páginas estampam uma “cronologia” intitulada “O Brasil e o mundo nos 80 anos de José Sarney”, organizada com a colaboração declarada de João Otávio Malheiros e Othelino Filho. O primeiro, gente boa, é um ambientalista inofensivo. O segundo, jornalista, é pai de um dos mais enrolados ex-secretários do governo Jackson, Othelino Neto, a quem a Polícia e o Ministério Público acusam de crimes diversos e multimilionários desfalques. Atualmente é secretário de governo do prefeito tucano João Castelo (São Luís). Nada disso no livro...
Cinqüenta páginas é muito, mas tampouco na cronologia há espaço para um mínimo de esclarecimento sobre a Operação Navalha. Ou, como já vimos, para o caso Ópera Prima, o mais famoso escândalo do governo tucano-pedetista cassado pelo TSE.
Isso é antijornalismo. O jornalista tem o direito de achar, certo ou errado, que Jackson é tão inocente na Gautama quanto Aderson na Ópera Prima. Não pode é subordinar a história à expectativa.
Maranhão do Sul
Sobra espaço ali é para repetir a mentira ― veiculada na TV por Arnaldo Jabor ― de que Edison Lobão, ao propor no Senado a criação do Maranhão do Sul, visava reservar um pedaço do estado para o clã Sarney, após a eleição de Jackson em 2006.
Não faz sentido. O principal campeão e defensor “histórico” do Maranhão do Sul é o atual prefeito de Imperatriz (MA), Sebastião Madeira (PSDB). Em 2006, Jackson obteve em Imperatriz sua maior vitória sobre Roseana, quase 80% dos votos. Até onde a vista alcança, nenhum Sarney jamais se elegeria governador desse pretenso “Maranhão do Sul”. Lobão, político forte na região, esse ainda tem uma leve chance, embora Madeira lhe faça sombra. Mas o que Lobão pretendeu mesmo foi associar seu nome platonicamente a um movimento popular que, nunca se sabe, pode acabar dando certo.
Há outras distorções e desinformações na cronologia. E uma ousadia: Ferreira Gullar e Bandeira Tribuzzi são classificados de “poetastros” (maus poetas), como se o fato de serem amigos de Sarney estragasse a poesia deles.
Vinho doce
No livro propriamente dito, informações ao mesmo tempo corretas e inéditas são raras. A maioria é copiada, enxertada, apressada, surfista. Há muita transcrição das conversas mafiosas de Fernando Sarney grampeadas pela PF e liberadas para os grandes jornais do eixo Rio–São Paulo. E mais ainda de difamações e fofocas assumidas sem a mínima checagem ou critério de relevância e decência. Como a de que Roseana “esbaldou-se” no carnaval pouco antes de submeter-se a uma cirurgia na cabeça.
O jornalista, ecoando seus contatos na atual oposição maranhense, insinua que a cirurgia foi uma farsa destinada a comover a opinião pública. Montada com a cumplicidade do Incor, naturalmente. Já o câncer de Jackson Lago merece tanto respeito que nem aparece no livro. O autor prefere mencionar que tomou vinho com o ex-governador.
Há também uma constante e quase obsessiva referência à homossexualidade alheia e a outros detalhes de vida privada de integrantes ou amigos da família Sarney. Que é também acusada de responsável pelo divórcio de José Reinaldo e Alexandra Tavares, após tantos anos de convivência tranqüila e feliz. Noutra passagem, chega-se a dizer que Fulano é filho “ilegítimo” de Sicrano, conceito preconceituoso que até nosso Código Civil já refugou.
PMDB brochou
Até a narração de cenas engraçadas que um dia contei a Palmério saíram deturpadas. Como aquela de 1985, quando o deputado Cid Carvalho levou ao presidente Sarney o deputado Haroldo Sabóia, pré-candidato à prefeitura de São Luís, em busca de apoio:
― Esse é o PMDB que lhe interessa, presidente ― entusiasmou-se ― Não um PMDB agachado. Um PMDB erecto!
(PMDB agachado seria o do candidato Carlos Guterres, que perderia para Sabóia na convenção partidária).
Sabóia ficou em quarto lugar, sem apoio de Sarney. Pouco depois, Roseana encontra Sérgio Braga, presidente da telefônica estatal Telma, ligado a Cid:
― E aí, Sérgio? Cadê o PMDB erecto do Cid? Broxou?
Na versão errada de Palmério, o interpelado foi o próprio Cid.
Quem não sabia?
Uma das melhores passagens ― ou antes, das mais promissoras, mas frustrada ― começa assim:
“Que jornalista desconhecia que Agaciel [Maia, diretor-geral do Senado) tocava uma fantástica fábrica de nomeações e multiplicação de cargos, funções, diretorias, até com sala secreta. Quem não sabia que ele sempre havia sido homem de Sarney, por Sarney indicado em 1995?”.
Não só de Sarney, claro, pois Agaciel se manteve no cargo na presidência de Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho, Ramez Tebet, Renan Calheiros, Tião Viana e Garibaldi Alves.
Também é evidente que não só os jornalistas tinham conhecimento “histórico” daqueles fatos e que a mansão de Agaciel, exibida nos jornais e TVs como prova do crime, não se ergueu da terra ou caiu do céu nesta véspera de ano eleitoral. Como disse Lula, reagindo às pretensões virginais de um correligionário: “Ô Suplicy: você acha que alguém vai acreditar que você, com 18 anos de Senado, não sabia de nada do que se passava ali?”.
Escândalo sem moldura
Eis o ponto:― se os jornalistas como Palmério, assim como senadores, sabiam dos escândalos operados por Agaciel desde 1995, para não falar dos anteriores, por que somente agora a grande mídia e seus satélites resolve se escandalizar, atuando como se atendesse a um único estado-maior?
Por que não dar sequência ao raciocínio? Por que não enquadrar o “escândalo do Senado” na moldura da eleição de 2010? Por que não citar que a filha de FHC era funcionária fantasma do Senado e que Virgílio manteve outro ectoplasma na Europa durante um ano, a expensas do erário, além de receber dinheiro vivo de Agaciel? Ou que Jereissati pagava despesas de seu avião com verba “indenizatória” de senador?
Falta ainda identificar que vírus da corrupção é esse que de repente transformou gente sadia em cleptomaníacos. Esse Renan, hoje “símbolo da corrupção”, base de Lula, não é o mesmo respeitável ex-ministro da Justiça de FHC? O execrável coronel Sarney, base de Lula, não foi base de FHC também? Não era articulista superprotegido da Folha e do Globo? Não continuou respeitável cavalheiro republicano até o dia em que meteu Roseana no caminho da candidatura tucano-paulista de José Serra em 2002 e, atalhada a filha pelo caso Lunus, juntou-se a Lula?
Que jornal ou revista do sudeste criticou ― como este nosso Colunão ― a exposição itinerante “Sarney, o poeta e defensor da liberdade”, promovida em 2000 pela ABL (Academia Brasileira de Letras), nas barbas da mídia e da História? Em 2000, ano da exposição, metade do segundo governo FHC, Sarney já não fora o presidente da Arena/PDS da ditadura? Agaciel já não era diretor do Senado havia um qüinqüênio?
Impossível não se espantar com o facciosismo do jornalista paraense. Tanto nos fatos “nacionais”, como nos locais, maranhenses. Nomear Ernani Sarney, tio de Roseana, atual chefe da Assessoria de Programas Especiais, realmente equivale a conceder-lhe uma “boquinha”, posto que nunca se soube que tivesse qualificação para tanto. Esquisito é fingir que não sabe que o milionário tucano Aderson, tantas vezes referido como fonte e quase como guru do livro, de uma só tacada conseguiu pendurar quatro parentes no arvoredo da Assembléia Legislativa, inclusive dois filhos residentes no Rio e a mãe octogenária e detentora de robusta pensão de viúva de procurador.
Apologia traída
Deixei para o fim uma incoerência inexplicável, os elogios que Palmério derrama na memória do jornalista Oliveira Bastos. Diz assim (página 92):
“Oliveira Bastos... poderia ter sido um desfrutável bobo da corte de Sarney, mas sua sólida cultura, aliada a uma incontida ironia, fazia dele uma poderosa iminência parda na corte”.
Aí conta o episódio, verdadeiro, em que Bastos, bebendo com Sarney na casa do presidente, disse que o governo dele era “uma merda”. Minutos depois, dona Marly indicou-lhe a porta da rua.
O Oliveira Bastos que emerge dessa anedota verdadeira é mal-educado, porem sincero e honesto. Pena que não tenha existido. Palmério devia contar-nos o outro lado da história.
O outro lado da história é justamente o título de um livro de memória do governo Sarney, publicado em 2001, muito depois do incidente cambroniano referido anteriormente, com artigos do próprio Sarney, de João Sayad, Saulo Ramos e outros. Oliveira Bastos é o coordenador, autor da introdução e articulista também.
Cerca de um ano depois, em 27/10/02, registrei o seguinte: “Coordenador do livreco laudatório Sarney, o outro lado da história (Ed. Nova Fronteira, RJ, 2001), o jornalista Oliveira Bastos acaba de anunciar que mandou uma carta ao ex-presidente, acabando “uma amizade de mais de 20 anos”. A razão, revelada por vários colunistas, é que Bastos enfim teria descoberto que Sarney “só cuida dos próprios interesses”. [Mas] Não é o que está no livro”. (Leia o resto da crítica aqui).
Espero que Palmério tenha lido a carta e não venha a ter decepção semelhante com suas fontes.
------------------
Nota: Este texto foi revisado em 18/10/09 para corrigir a informação de que Wagner Lago (PDT) ainda era deputado federal em 2007, quando ocorreu a Operação Navalha".