sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Implicações emocionais envolvidas na adoção de sêmen

Entenda o dilema vivido pelo personagem Paulo (Dan Stulbach), em Fina Estampa

A vivência emocional da infertilidade pelo homem, é, geralmente, frustrante, uma vez que ainda vivemos em uma cultura machista, onde sinal de “ser homem” é ser um “bom reprodutor”. Assim, a incapacidade de engravidar uma mulher pode vir associada mentalmente à falta de masculinidade ou virilidade.

Em casos onde a qualidade do sêmen, avaliada através do espermograma, é muito baixa, percebemos que o nível de angústia masculina é ainda mais intenso, principalmente, quando a adoção de sêmen de outro homem é indicada pelo médico como a opção mais viável (ou até mesmo a única opção terapêutica) para a concepção.

É fato que a maioria dos casais que buscam por tratamentos de reprodução assistida espera sair desse processo com um filho geneticamente relacionado a eles. No entanto, em alguns casos, isso não é possível, sendo necessária a desconstrução de um sonho idealizado para a construção de um sonho possível.

Nota-se que o luto pela perda do filho biológico e sentimentos de dor e frustração, advindos desse processo, podem ser experimentados para, aos poucos, cederem lugar às novas possibilidades de paternidade, com suas perda e ganhos.

Muitas fantasias podem surgir em meio ao casal que vivencia esse tipo de técnica, principalmente, pelo fato do sêmen, na maioria das vezes, ser associado a um caráter mais sexualizado.

Sentimentos de ciúmes do doador (que é desconhecido) podem surgir por parte do homem, que sente-se abalado em sua auto-estima e confiança em si mesmo. Alguns chegam a dizer que é “como se sua mulher estivesse se relacionando sexualmente com outra pessoa”.

O caráter sexual atribuído ao sêmen não é feito somente pelos homens em tratamento, muitas mulheres dizem que não conseguem nem imaginar o sêmen de outro homem, que não o de seu marido, dentro de seu corpo.

Muitas preocupações podem surgir em meio ao casal que vivencia esse processo, como por exemplo, o medo por parte da mulher de que o marido não assuma a paternidade da criança numa eventual separação, ou então, o temor por parte do homem de que a esposa venha a lhe “jogar na cara”, numa briga futura, que o filho não é dele.

Receios a respeito da possibilidade de doenças genéticas e traços patológicos de caráter são comuns também, sendo necessário o esclarecimento de que algumas doenças, predisposições temperamentais e traços físicos podem ser herdados, mas valores, crenças, formas de pensar e agir são adquiridos e aprendidos na convivência familiar.

Assim, em meio a tantas questões importantes, é imprescindível a presença de um psicólogo junto ao processo de adoção de sêmen, trabalhando aspectos emocionais não somente junto ao homem, mas em conjunto com o casal, que pode se fragilizar bastante diante deste tipo de procedimento.

Luciana Leis é psicóloga.
É especializada no tratamento de casais com problemas de fertilidade.
Blog da Psicóloga Luciana Leis
@lucianaleis

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