quinta-feira, 9 de abril de 2015

Diretor da Petrobras diz que cancelamento de refinarias não se deve à Lava Jato

Em audiência na Câmara dos Deputados, Jorge Celestino Ramos ressaltou que a estatal desistiu de construir as duas unidades no Nordeste por questões econômicas
Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
Audiência pública para discutir os motivos que levaram ao cancelamento da construção das refinarias Premium I e Premium II, bem como avaliar o impacto socioeconômico causado nos estados do Maranhão e do Ceará em função da enorme expectativa criada, e avaliar os valores gastos pelos governos dos citados estados. Diretor de Abastecimento da PETROBRAS, Jorge Celestino Ramos
Jorge Celestino: Petrobras fez todo o esforço para manter os investimentos, mas o risco no mercado de petróleo está alto.


A decisão da Petrobras de cancelar a construção de duas unidades de refino no Maranhão e no Ceará (Premium I e II) não tem relação com os efeitos da Operação Lava Jato, que investiga corrupção na companhia, e foi motivada apenas por fatores econômicos.
A afirmação foi feita nesta quarta-feira (8), em audiência pública, pelo diretor de Abastecimento da estatal, Jorge Celestino Ramos, em resposta à pergunta da deputada Eliziane Gama (PPS-MA). A deputada é coordenadora da comissão externa da Câmara dos Deputados que analisa a suspensão dos dois investimentos.
De acordo com Ramos, o cancelamento dos dois projetos, anunciado em janeiro passado, foi motivado por três fatores: a queda dos preços do mercado mundial de petróleo e refinados, que reduziu as “margens de refino” (retorno financeiro, descontado o custo das matérias-primas) e tirou a atratividade dos empreendimentos; a desistência da companhia petroquímica chinesa Sinopec, que estava negociando participação nas unidades; e a necessidade da empresa de preservar seu caixa.
Esforço
Segundo ele, o ambiente macroeconômico mundial mudou desde 2006, quando a companhia decidiu apostar na construção das duas unidades de refino.
Ramos garantiu que a Petrobras "fez todo o esforço com sua equipe" para manter os investimentos, mas não foi possível diante do cenário econômico. "Não tivermos êxito na busca de montar essa engenharia. O risco de se investir em petróleo agora é elevado", afirmou.
De acordo com ele, somente a retomada do crescimento mundial e a melhora nos preços do petróleo e dos refinados poderão levar a companhia a retomar projetos de construção de novas refinarias no País. "Na medida em que as margens de refino se reposicionam e tenho financiamento, tenho mercado em expansão, posso voltar a rediscutir os projetos", afirmou o diretor da estatal após pergunta do deputado Chico Lopes (PCdoB-CE).
Durante a audiência pública, Ramos afirmou que o prejuízo já declarado com o cancelamento da obra do Maranhão, de cerca de R$ 2,1 bilhões, representa entre 1% e 2% do custo global da unidade. No total, a companhia declarou, em comunicado ao mercado, perdas de R$ 2,7 bilhões com o encerramento dos dois projetos, que se destinavam à produção de refinados como óleo diesel, gás de cozinha e querosene de aviação.
O prejuízo refere-se principalmente aos projetos e às obras de terraplenagem realizadas nos terrenos cedidos pelos governos estaduais para as usinas, que ficam nas cidades de Bacabeira (MA) e Caucaia (CE).
Devolução
O diretor de Abastecimento disse que a Petrobras está negociando com os governos dos estados do Ceará e Maranhão a devolução dos terrenos e cancelando convênios que haviam sido firmados. A negociação, segundo ele, é uma exigência da legislação, pois a empresa precisa dar baixa nos ativos que não usará mais.
Segundo ele, os estados não foram avisados com antecedência porque a legislação das sociedades anônimas exige que o mercado seja informado em primeiro lugar. Isso foi feito por meio de um Fato Relevante divulgado em janeiro. "A gente entende que essa não foi a melhor forma de discutir o assunto", reconheceu Ramos, após questionamento do deputado Weverton Rocha (PDT-MA).
Apesar da explicação, a decisão da estatal de não informar previamente os governos foi criticada pelo deputado Pedro Fernandes (PTB-MA). "Isso é história para boi dormir. Ou o projeto foi mal pensado, aí a Petrobras se corrige cancelando, ou [a suspensão] foi de uma irresponsabilidade muito grande. O cancelamento dos projetos foi na calada da noite”, disse Fernandes, que decidiu sair da reunião em protesto contra as palavras do diretor da Petrobras.
Nova audiência
Na próxima quarta-feira (15), a comissão externa vai realizar uma nova audiência pública, desta vez para ouvir o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga. O convite para ele ainda será formulado. Na próxima sexta (17), o colegiado deverá visitar a cidade de Bacabeira, onde seria instalada a unidade maranhense.
Reportagem – Janary Júnior
Edição – Marcos Rossi

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